O Ovo de Ouro

'O Ovo de Ouro' traz à tona sonderkommando, figura pouco conhecida no Holocausto


Espetáculo O Ovo de Ouro, de Luccas Papp, traz à tona sonderkommando, figura pouco conhecida no Holocausto. Peça também celebra os 80 anos de Sérgio Mamberti

 

 O conflito vivido por judeus que eram obrigados a auxiliar na aniquilação de seu próprio povo e, ao mesmo tempo, ter que conviver com o medo da morte é o mote para o espetáculo. Com direção de Ricardo Grasson, peça traz no elenco Sérgio Mamberti, Leonardo Miggiorin, Rita Batata, Ando Camargo, além do próprio autor

 

A função do Sonderkommando ou comandos especiais, unidades de trabalho formadas por prisioneiros selecionados para trabalhar nas câmaras de gás e nos crematórios dos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, inspira O Ovo de Ouro, com texto de Luccas Papp e direção de Ricardo Grasson

Obrigados a tomar as atitudes mais atrozes para acelerar a máquina da morte nazista, esses prisioneiros conduziam outros judeus à câmara de gás, queimavam os corpos e ocultavam as provas do Holocausto. Quem se recusava a desempenhar esse papel era morto, quem não conseguia mais desempenhar a função, era exterminado com os demais.

 

Ovo de Ouro surge da minha necessidade de não deixar morrer esse pedaço tão importante da História que é a Segunda Guerra Mundial, o nazismo e o Holocausto. A ideia de escrever a peça surgiu em 2014, quando eu fui apresentado ao universo do Sonderkommando por meio de um pequeno artigo em uma revista. Essa figura do judeu que tem que auxiliar com o extermínio do próprio povo mexeu muito comigo e minha noção de humanidade, e me incentivou a tentar entender por que eles faziam isso, por que eles não se recusavam. Com este espetáculo temos a oportunidade de falar sobre Segunda Guerra sob o ponto de vista dessa figura pouco conhecida”, explica Luccas Papp. 

 

Contada em diferentes episódios e tempos, a trama revela a vida de Dasco Nagy (Sérgio Mamberti), que foi Sonderkommando e sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Em cena, dois planos são apresentados – a realidade e a alucinação – para retratar a relação do protagonista Dasco Nagy quando jovem (Luccas Papp) com seu melhor amigo Sándor (Leonardo Miggiorin), com a prisioneira Judit (Rita Batata) e com o comandante alemão Weber (Ando Camargo). No presente, Dasco é entrevistado, já em idade avançada, por uma jornalista, narrando os acontecimentos mais horrorosos que viveu no campo de concentração e descrevendo a partir do seu ponto de vista os horrores e tristezas da Segunda Guerra Mundial.

O papel de Dasco é dividido pelos atores Sérgio Mamberti, que dá vida ao personagem no tempo presente/alucinação, e Luccas Papp, que o interpreta no passado/realidade, no plano da memória. “Talvez este seja um dos personagens mais desafiadores na minha carreira por uma série de fatores. Um deles é por representar o mesmo personagem que Sérgio Mamberti, o que é uma honra e uma responsabilidade muito grande. Segundo, é que ele é um sonderkommando vivendo situações de caráter tão absurdo. Eu preciso fazer com que o público acredite na realidade do que acontecia nos campos de concentração. Tenho que trabalhar com elementos obscuros no meu interior para trazer veracidade para essas situações. E como a peça é feita em ordem não cronológica – são nove cenas divididas entre passado e futuro – tenho que organizar minha cabeça para conseguir colocar a emoção certa na hora certa”, esclarece o ator e dramaturgo.

A dualidade interna entre ser obrigado a auxiliar na aniquilação de seu próprio povo e o medo da morte transforma o Sonderkommando em um complexo personagem a ser debatido. Nesse contexto são muitas as questões discutidas, desde o significado real de humanidade, o medo da morte, os limites da mente e da alma humana e a perda da própria identidade.

A dramaturgia foi inspirada em uma pesquisa sobre obras que discutiam os temas do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial. Entre elas, destacam-se os livros Sonderkomamando: No Inferno das Câmaras de Gás, de Shlomo Venezia, e Depois de Auschwitz, de Eva Schloss; e o filme O Filho de Saul, de László Nemes, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2016.

 

A encenação

A encenação tem como inspiração e referência, a sétima arte, em todos os seus desdobramentos, nuances e dezenas de relatos deixados pelos sobreviventes dos campos de extermínio. “Apontamos no tempo presente, o encontro entre a jornalista e o sobrevivente, de forma fantasmagórica, alucinógena, imprimindo uma atmosfera vibratória, de vida pulsante às cenas e aos personagens. Quando nos transportamos, ilusoriamente, ao campo de concentração, ao passado concreto, vivido pelos personagens apontamos uma atmosfera fria, enclausurada, suspensa e sem vida, que nos conduz imageticamente àquelas sensações de crueldade. Luz, som, cenografia e figurino conversam com essa estética e nos conduzem à proposta de encenação. A ideia é fazer com que as sensações criadas por estes elementos no espaço cênico atinjam o espectador de maneira intensa. Como encenador, entendo que a cenografia, o figurino, a iluminação, a trilha sonora não são panos de fundo ou cama para um espetáculo, juntos eles atuam concretamente fusos ao texto, formando assim uma narrativa dramatúrgica única”, revela o diretor Ricardo Grasson.

 

Para que não se repita

“Em tempos de pouco diálogo, imposição de ideias e ideologias, censura e extremismos é fundamental debatermos esses temas tão duros e atrozes para que os erros que provocaram tanto sofrimento no passado não se repitam. É necessário e quase que um dever recordarmos as atrocidades do holocausto nazista, para que a história vivida no final dos anos trinta e início dos quarenta, não volte a nos assombrar. Para que as novas gerações, não testemunhas deste período da história, saibam o que aconteceu e onde a intolerância pode nos conduzir. Auschwitz e outras tristes lembranças do holocausto, podem até escapar da memória, mas jamais deixarão os corações de quem viveu a tragédia, especialmente de quem se atribui a responsabilidade de manter viva, por gerações, as imagens da perversidade humana. Uma das formas de evitar a repetição de tais tragédias coletivas é recordá-la, para que não ressurjam no horizonte, sinais do restabelecimento de ódios raciais, extremismos comportamentais e ideologias sectárias, formando o caldo cultural do qual o nazismo se alimentou e  cresceu”, completa Ricardo Grasson.

 

... É fácil esquecer para quem tem memória; difícil esquecer para quem tem coração”...

Gabriel Garcia Marques

 

Sobre Ricardo Grasson – diretor

Ator, diretor e produtor de teatro, formado em cinema pela "NUCT" Nuova Università dell cinema e della televisione - Roma – Itália. Como produtor nos últimos anos levantou mais de 40 espetáculos na cidade de São Paulo ao lado de diretores como Caco Ciocler, Eric Lenate, Marco Antônio Rodrigues, Vanessa Bruno, Michele Ferreira, Wolf Maya, José Possi Neto, entre outros. Durante cinco anos fez parte da Cia Club Noir, como ator, assistente de direção e produtor nos espetáculos: PEEP CLASSIC ÉSQUILO, As Suplicante, Prometeu e Agamenon, Mostra Brasileira de Dramaturgia Contemporânea, Hieronymus nas Masmorras, Aqui, Happycinio, Procurado e Agro Negócio, H.A.M.L.E.T., Burguer King, Casa, Pinokio, A Construção. Foi assistente de direção nos espetáculos, 45 minutos, A Construção, Tríptico Samuel Beckett. Como ator, participou das montagens Pirandello per sempre. No Centro de Pesquisa Teatral, participou do processo de criação dos espetáculos: Medéia, O Canto de Gregório e O Jardim da Cerejeiras. Também atuou nos espetáculos Sit Dow Drama, de Michele Ferreira e Fim de Partida, de Samuel Becket ambos com direção de Eric Lenate.

No cinema atuou nos filmes: Labanda del Giardulo direção de Lucca Guardabaccio - Itália, Tasck Forse, direção de Mauro Mathia RAI Itália, Tacco di donna, Banana Rossa, Bolle di sapone, Uriele, Room servisse, La resistenza nell lazio e Destroy, direção de Franceco D'apprile Itália. Recebeu o prêmio de melhor ator por sua atuação no filme, Uriele de Nana Frozzina - Festival de Marsala- Sicilia, ator revelação pelo mesmo filme  no  Glob Festival de Roma- Itália.

 

Sobre Luccas Papp – autor, ator e produtor

Formado em filosofia pela FFLCH/USP, Luccas Papp tem mais de 20 textos registrados como autor teatral, como os premiados O Estranho Atrás da Porta e A Trágica Antologia Familiar. Foi professor e diretor de teatro da escola Fundação Bradesco por oito anos até abrir sua própria oficina de atores em 2019.  Atuou e dirigiu mais de 25 espetáculos. Na televisão, atuou em Nove Milímetros, na Fox, e foi antagonista em Brilhante FC, na Nickelodeon. Filmou Eldorado, média-metragem de Paula Goldman, e Lula, o Filho do Brasil, de Fábio Barreto. Esteve no ar no elenco de A Mira do Crime, no FX e na Record, e fez uma participação especial em Felizes Para Sempre, exibido pela Rede Globo e dirigido por Fernando Meirelles. Em 2018, estreou a novela As Aventuras de Poliana, no SBT, interpretando o atrapalhado vilão Mosquito.

 

Serviço:

Data: 21 de Novembro a 08 de Dezembro
Local: SESC Santo Amaro
Endereço: Rua Amador Bueno, 505 - Santo Amaro, São Paulo
Horário: Quinta e Sexta-feira ás 21h00 | Sábado ás 20h | Domingo ás 18h
Ingressos: https://www.sescsp.org.br/programacao/210292_O+OVO+DE+OURO

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